Transformação virtual
Cresce o número de usuários da internet, mas ainda não se pode falar em inclusão digital

No inicio dos anos 90, a palavra internet era desconhecida no cenário nacional. Hoje, quando ela completa dez de Brasil, ainda não estabelece uma relação de intimidade com a maioria das pessoas.

Para a socióloga e professora universitária, Nádia Balestrin, ainda que essa nova tecnologia da informação não conecte todo um contingente, conforme o desejado, ela tem o índice de alcance mais veloz do que qualquer outro meio de comunicação na história.

“A tecnologia da informação constitui-se em uma revolução onde pela primeira vez na história a mente humana é uma força direta de produção. Essa tecnologia desenvolveu-se rapidamente, ligando o mundo, mas existe ainda um grande segmento da população que está desconectado do novo sistema”, explica.

A socióloga destaca a utilização da web nos mais diversos setores da vida. “A internet expandiu-se, podendo ser aplicável a todos os tipos de atividades que são possíveis de conecções eletrônicas, criando assim uma verdadeira teia mundial”.
Diante dessa integração, Nádia ressalta que a desigualdade quanto ao acesso à tecnologia é um dos paradoxos mais impressionantes da era da informação.

“Existem grandes concentrações de usuários nos ambientes comerciais e residentes urbanos, mas não podemos afirmar a existência da democratização deste recurso, contudo ela é uma possibilidade de inclusão”.
Quanto ao grau de sociabilização mediado pela rede, a professora diz que o fenômeno é recente, o que dificulta chegar a conclusões sólidas sobre o significado social da internet.

“Segundo pesquisas existentes, ainda não está claro o grau de sociabilidade que ocorre nessas redes eletrônicas e quais são as conseqüências culturais dessa nova forma de sociabilidade. Alguns estudiosos condenam a desumanização das relações trazidas pelos computadores, pois a vida online parece ser a maneira mais fácil de fugir do real. Esses autores afirmam que as comunidades virtuais substituem as redes sociais, e com o passar do tempo acabam oferecendo apoio pessoal e afetivo. Assim, a interação via internet pode ser tanto especializada/funcional, quanto ampla/solidária”, explica.

O vício on line
A internet abriga um vasto universo de serviços, assuntos e informações, no entanto segmento entretenimento é o que mais assusta e demanda atenção e cuidado dos usuários. Ressalva-se ainda, que muitos desses adeptos são crianças e adolescentes, o que implica aos pais estarem mais alertas.

Para os especialistas que estudam a influência dessa mídia na vida das pessoas, a problemática reside na dependência que alguns produtos por ela veiculados despertam nos consumidores.

Dentre os maiores atrativos da rede estão os jogos online, o MSN (mensagens instantâneas) e os chat (salas de bate papo). Qual o jovem ou adolescente que nunca acessou, pelo uma vez, algum desses serviços?

Eduardo Nascimento, 12 anos, estudante da 7ª série, se diz um viciado em computador. “Em casa, fico plugado cerca de três horas por dia. Queria ficar mais, se os meus pais deixassem”. Freqüenta Lan house somente nos finais de semana e costuma comprar os pacotes promocionais de 5 horas. Seus jogos preferidos são:
CS (guerra com armas entre policiais e terroristas) e NFSU 2 - (Need For Speed Underground 2) jogo baseado em corridas clandestinas e permite customizar o carro-tuning.

Com tantas horas diante do computador, é difícil conciliar os estudos e essa é a maior preocupação entre os pais. “As notas na escola estão meio ruins, preciso estudar mais, senão vou reprovar”, diz ele.

O barato da Lan house é encontrar a turma para jogarem juntos. Como os computadores são interligados em rede, isso permite que várias pessoas fiquem simultaneamente conectadas no mesmo jogo.

Luciano Lourenço, 18 anos, está cursando primeiro ano de Direito e admite que passa todo o seu tempo livre diante do computador. Os programas com amigos sempre incluem várias horas na Lan house. “É legal vir aqui, porque você encontra os amigos, em casa você joga sozinho”, diz ele. Um encontro diferente, já que cada um fica numa cabine, com fones de ouvido absorvidos pelo movimento na tela do computador.

Rodrigo Andrade Santos, 23 anos, responsável por uma Lan house no Shopping, diz que tem os clientes cativos, que freqüentam o estabelecimento todo final de semana e alguns vêm diariamente. “Esses sempre que possível compram os pacotes com o limite máximo de horas”. Ele diz que não é permitida a entrada de menores sem o cadastro com autorização dos pais. Assegura que o conteúdo proibido para crianças é bloqueado.

Mesmo assim, eles são maioria entre os freqüentadores. Hoje já se tornou comum a comemoração de aniversários com festas na Lan house. Aniversariante e convidados passam em média 7 horas jogando, mas admitem um pequeno intervalo para o bolo e o tradicional parabéns.

Em entrevista à revista 12 horas, a psicóloga Silvia Ferraz, XX anos, espacializada em psicologia clínica fala sobre uso abusivo da internet.
12 horas: Como a psicologia explica os relacionamentos que cada vez mais virtuais?
SF: Não posso falar pela Psicologia como um todo, pois considerando que esta é uma “ciência” humana, há muitas maneiras de interpretação da realidade. Portanto, falarei da minha posição e olhar como pessoa-psicóloga. Creio que os relacionamentos virtuais não deixam de ser relacionamentos humanos. São formas, possibilidades, novidades, descobertas. Comunicação. Por muito tempo contamos com a comunicação mais pessoal. Hoje a internet é uma possibilidade sedutora por muitos motivos, portanto sua utilização não é prejudicial se for usada de forma equilibrada e consciente.
12 horas: Por que alguém passa horas na frente de um computador? Como saber até que ponto isso é saudável, qual o limite?
SF: O ser humano tem profunda necessidade de se comunicar, de expressar suas idéias e sentimentos, de absorver informação, questionar, intervir, trocar. Hoje a internet é um meio muito acessível para conduzir-se na exploração desta necessidade. Além disso, a identidade que muitas vezes pode ser implícita por trás da tela do computador, favorece a liberdade de expressão, opinião e busca.
Cada pessoa deve buscar por si mesma sua clareza quanto ao limite do saudável, considerando como estão sendo nutridos e explorados outros aspectos de sua vida (social, profissional, emocional, espiritual, etc).
12 horas: As relações virtuais podem trazer vantagens para quem utiliza? Quais são os pontos positivos?
SF: Sendo um meio de comunicação, com certeza já traz um ponto positivo, visto essa necessidade humana. Como diria Osho, cada pessoa tem suas formas de se sentir viva, pulsando, meditando com a vida. Para algumas, lhes dê uma boa leitura, para outras a dança, ou o silêncio, esportes, sexualidade, o contato com a natureza, com amigos, etc.
Vejo a internet como mais uma possibilidade de agir, aprender, reagir, trocar.
12 horas: O que a caracteriza um vício?
SF: Vício é o apego contínuo a uma fonte de satisfação, ilusória ou não. Se a internet supre de certa forma a necessidade de comunicação de uma pessoa, o vício estaria representando o aspecto negativo no momento em que, por manter uma freqüência excessiva ao computador, limita outras possibilidades de vivência, prazer, descoberta.
12 horas: Qual o melhor tratamento para as pessoas que não conseguem se comunicar pessoalmente com as outras?
SF: Em primeiro lugar, reconhecer esta limitação, para então desejar transpô-la.
Creio que antes de tudo é um processo cultural, social. Uma cultura que dê espaço, motivação e acolhimento para as mais diversas formas de expressão das pessoas favorece que estas se sintam mais livres para conduzirem suas vidas e comunicações com menos máscaras e receios de não serem aceitas em sua totalidade e integridade.

Individualmente, cultivar a auto-estima e a consciência e coragem de se expor com dignidde e fé em si mesmo, dependendo menos da aprovção alheia. Conseqüentemente, aprender a aceitar o outro independente de seus julgamentos e preferências desperta maturidade, compreensão espiritual e favorece uma convivência mais digna entre as pessoas.


Créditos

Reportagem:
Ivone Macedo
Márcio Norberto
Marianna Camargo

 

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